Na semana passada aconteceu o maior congresso internacional de gastronomia, promovido pelo pessoal valente da Prazeres da Mesa em parceria com o SENAC. Digo isso com toda certeza porque não é fácil organizer um evento dessa envergadura sobre gastronomia, que teve uma imensa contribuição da escola italiana ALMA, sob a batuta de Luciano Tona, que também tem parceria com o SENAC para captacitação de profissionais.

Foto caramelodrama
No ano da Itália no Brasil, o tema “a caminho de uma cozinha consciente” foi saboreado por grandes nomes e grandes ensinamentos para nós. Através de conceitos, receitas e muita emoção mesmo, os chefs nos explanaram como o tradicional pode ser reinventado, respeitando-se ingredientes e o meio ambiente. E meio que incrédulos, assistimos, filmamos e fotografamos um a um, em sua alquimia, conceitos e receitas.

Num desfile de estrelas do Guia Michelin, vimos como o conhecimento e respeito se misturam na cozinha. Obras de arte, música erudita etc.: a gastronomia como arte e aquilo que tanto queremos e buscamos: gastronomia como cultura.

A abertura homenageou Gualtiero Marchesi, considerado o pai da cozinha contemporânea italiana que recebeu (e devolveu!!!) as 3 estrelas do Michelin, como forma de questionar a sua validade. É dele o impressionante e famoso riso D’Oro, uma reinvenção do risoto milanês, criado há décadas atrás, que leva uma delicada folha de ouro ao centro, muito pioneiro…

Davide Oldani nos chamou atenção pelo seu minimalismo na apresentação das receitas. Ele desenvolveu uma linha única de louças para o serviço, muito interessante. Segundo ele para não dispersar nem intimidar o cliente na hora de experimentar o prato de sua cozinha, autointitulada de “pop”. Aliás a tendências de louças transadas apareceu em quase todas as palestras.

Seu restaurante chama D'O, interessante, faz alusão as iniciais dele e ao mesmo tempo o trocadilho com “denominazione di origine” – denominação de origem.

Valeria Piccini, uma chef que tem a cara das mamas da Itália, é a estrela Michelin numa região muito fora do circuito, em Grosseto, com seu restaurant Caino. Ela deixou a todos muito intrigado quando acrescentou água coada de cinzas de madeira para dar um sabor mais “rural”a um grão de bico, uma unanimidade como base das receitas.
Foto de Alessander Guerra – Blog Cuecas na Cozinha
Dario Cacchini foi aplaudido de pé. O “açougueiro”que perpetua a tradição de sua família que há mais de 250 anos serve as delícias da carne aos italianos na Antica Macelleria Cecchini, emocionou. Basicamente ele discorreu sobre o aproveitamento total de um animal, desmistificando essa coisa de carnes de primeira e segunda. Fez isso enquanto destrinchava uma perna inteira de boi, com uma habilidade tremenda em apenas uma horinha…Segundo ele, tudo é nobre e merece nossa atenção como cozinheiros e paixão como consumidores. Ele mesmo em seu discurso inflamado, entre facas e chairas, acabou beijando um naco de carne crua…Muito figura, muito importante nesse momento em que as pessoas estão fugindo um pouco do simples e de suas origens na cozinha, em favor de uma linha de trabalho muito intelectualizada e muitas vezes, chata, sem prazer! Como pertencente a uma família de imigrantes açougueiros esta palestra me deixou realmente comovida, muito digno.

A apresentação de Moreno Cedroni foi o próprio sonho de verão italiano. Mostrou como seu restaurante, Madonnina del Pescatore, bem na praia, serve pratos incrivelmente criativos. Confesso que achei bonito, mas essa coisa de lula azul foi um pouco chocante ao paladar. A dica: ferve-se o repolho roxo e essa água funciona como tinta para colorir a lula. Tudo natural!

Mais slow food: Gennaro Esposito e Luca Gardini, do Torre del Saracino também abusaram do sabor da natureza, no bom sentido, fervendo pedras do mar para acrescentar sabor a uma receita. Só fiquei pensando que se a moda pega…

O fechamento dos italianos se deu com Massimo Bottura que desde os anos 90 é um ícone da vanguarda gastronômica de lá e este ano foi eleito o melhor chef do planeta pela International Academy of Gastronomy - Paris. Ele está sempre no Brasil e ama nosso país. Dessa vez trouxe um vídeo lindo sobre como está ajudando a revitalizar rio e atividade junto a uma comunidade ribeirinha do rio Pó que percorre a Lombardia, Piemonte e Vêneto, com uma costura poética do artista (fofo) Luciano Fontana. Muito louvável. Segundo ele é preciso considerar o passado, mas sempre olhando para o future, sem saudosismo, mas tendo em mente a evolução.


Aliás, a tônica de todo o congresso ficou muito centrada em “evolução em vez de revolução”. Todos os grandes nomes falaram sobre a importância de um ingrediente de qualidade, desenvolvimento de fornecedores locais, sustentabilidade em toda a cadeia, preservação e consciência para continuarmos apreciando o melhor da natureza no futuro.

Os brasileiros também estiveram por lá fazendo bonito. Samantha Aquim e sua caixa maravilhosa de chocolates impressionou. Ela está liderando um movimento para devolver a nobreza do chocolate ao Brasil e seus maravilhosos cacaus. Basicamente apresentou sua saga pelas fazendas na Bahia até o desenvolvimento de uma supercaixa gourmet ao melhor estilo Nespresso, ainda por cima com as barrinhas assinadas por Oscar Niemeyer. Experimentamos tudo, surpreendemente deliciosos!

Além dela, fizeram bonito Bella Masano, Danio Braga, Faustino Paiva,Luciana Quintão (da ONG Banco de Alimentos, um bonito trabalho tudo a ver com uma cozinha mais sustentável),Roberto Bielawski, Julia Lopes e Juca Pontes (muito jovem, muito talentoso), um novo nome que está despontando no nordeste.


Carla Pernambuco,Helena Rizzo, Ana Luiza Trajano, Rodrigo Oliveira e o francês Julien Mercier, Giancarlo Bolla, Simone Bert e Mara Mello. Do “Olimpo”também estiveram presentes Claude Troisgros, Alex Atala, Josimar Melo e Roberto Smeraldi, que está a frente da Oscip Amigos da Terra – Amazônia Brasileira que encaminhou uma carta de todos os gastrônomos em defesa das nossas florestas e seus ingredientes. Falando em Olimpo, foi bacana ver como os “monstros” italianos foram humildemente ocupando as primeiras filas do auditório do Senac para ver as palestras de seus colegas.



Agradeço a Ricardo Castilho, Mariela e Georges por essa superoportunidade de ampliar nossos conhecimentos com o trabalho de tantos expoentes mundiais, de uma só vez - um encontro inesquecível. Particularmente foi encantador ouvir o Chef Aimo Moroni, que deu um show de sentimentos ao explicar sua proposta da cozinha do coração, no seu restaurant Aimo e Nadia.

Valeu muiiiiiiiiiiiito a pena!
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